"Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras" Clarice Lispector

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 
 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 
 
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 
 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 
 
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 
 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

Álvaro de Campos

4 comentários:

Paula Marina disse...

Fernando Pessoa é um gênio da poesia na língua portuguesa, seus poemas sempre nos fazem pensar.
bjus

Carla Reichert disse...

simplesmente fantástico Ká esse poema que eu não conhecia.
Eu gostaria de posta-lo em meu blog hoje tmb, pois ele é um pouco de cada um de nós.
é difícil admitirmos erros e sempre nos escondemos para as pessoas.
incrivel.
e obrigada pelo seu comentário.
alias, eu postando colocarei o link do seu blog na postagem, pois foi atravéz da sua postagem que eu passei a conhecer.
bjs

Natália Limiro de Castro disse...

Não conhecia mas achei o texto bem legal
retrata bem o ser humano.

beijocas

Thânia Katiuce disse...

Também adorei seu blog. E adoro Fernando Pessoa, esse poema é praticamente um espelho...
Beijos.