Se observarmos a experiência com lealdade: quando é que nos sentimos livres? Pensemos no exemplo de uma menina que descobre que seus amigos vão fazer uma festa e fica com vontade de ir. Vai pedir ao seu pai e ele, surpreendentemente e contrariando os seus hábitos, diz não. O desconforto e a raiva da menina são sinais de que ela não se sente livre. Só depois, de uma discussão um tanto acessa, que seu pai finalmente permite que ela vá à festa é que ela se sente livre. Nos sentimos livres quando vemos satisfeito um desejo. Por isso, a liberdade é a satisfação de um desejo. Essa é a verdade que se esconde na expressão imediata e instintiva que todos nós temos da liberdade e que se expressa claramente na simples frase: "Ser livre é fazer o que bem se entende".
Mas é bem verdade que nós não nos contetamos com a satisfação dos nossos desejos mais imediatos. Quanto mais esses desejos são respondidos, mais fica evidente que desejamos algo mais. Quando éramos crianças nos contentávamos com balas. Hoje, não é mais assim. Se prestarmos atenção no que a experiência nos diz e formos leais com o que aparece nela, a experiência nos faz descobrir a verdadeira natureza do nosso desejo, que nunca se esgota.
Todos nós já fizemos experiência de que a vida nem sempre nos castiga. Em muitas ocasiões, conseguimos realizar aquilo que desejamos, mas isso não nos satisfaz definitivamente. Depois de pouco tempo estamos novamente no ponto de partida. Por isso, tenho pensado muitas vezes que é quando a vida responde "sim" que começamos a nos dar conta do drama que é viver. Quando a vida responde "não", a pessoa ainda pode esperar pelo dia que ela responderá afirmativamente; mas o drama começa quando a vida responde "sim" e essa resposta não basta. Quando um homem faz esta experiência no trabalho, com a sua esposa, com qualquer coisa... acaba por se perguntar: "o que é que basta, então?" "O que nos satisfaz totalmente?"
Tenho uma amiga em Barcelona que pintava e o seu sonho era realizar uma grande exposição. Finalmente conseguiu. Como ela mesma me contou depois, teve sucesso acima de todas expectativas. Por isso, eu mal pude acreditar quando ela me disse que, no dia desse grande sucesso, ela passou a tarde inteira chorando. Como uma pessoa pode chorar depois de um sucesso daqueles? Por acaso a minha amiga não era normal, tinha algum problema? Não; ela havia feito a mesma experiência do escritor Cesare Pavese no dia em que lhe concederam o Prêmio Strega, o maior reconhecimento literário italiano: "Em Roma, apoteose. E daí?" Por que não basta, por que depois do sucesso a pessoa não fica plenamente satisfeita? O que é que nos satisfaz, entao?
O que a insatisfação depois do sucesso me ensina a respeito da natureza do meu desejo, da minha natureza de homem? Pavese o intuiu muito bem: "O que o homem busca nos prazeres é um infinito, e ninguém jamais renunciaria à esperança de alcançar essa infinitude."
A liberdade, portanto, justamente a partir da experiência da realização de desejos imediatos e parciais, revela-se como a "capacidade" da satisfação total e completa, ou seja, como capacidade da perfeição, da realização de si, do próprio desejo de homem. Ninguém descreveu a natureza do desejo humano como o poeta Giacomo Leopardi: "O fato de não se satisfazer de nenhuma coisa terrena, nem, por assim dizer, da terra inteira; de considerar a amplitude inestimável do espaço, o número e a imponência maravilhosa dos mundos e descobrir como tudo é pequeno e mísero diante de nossa alma; de imaginar infinita a quantidade de mundos, o universo infinito, e sentir que nossa alma e nosso desejo são ainda mais vastos que tal universo; de acusar continuamente as coisas de insuficiência e nulidade e padecer angustia e vazio e, portanto, tédio parecem-me o maior sinal da magnetude e da nobreza da condição humana. ("Pensamentos")
Essa é a grandeza única do homem: seu desejo é "ainda mais vasto que tal universo" É justamennte por essa amplitude de nosso desejo que podemos "acusar as coisas de insuficiência e nulidade e padecer angustia, vazio e, portanto, tédio". O que para muitos é a desgraça da vida - sentir insuficiência de tudo, padecer de angustia e vazio - é para Leopardi o maior sinal de grandeza da natureza humana. Podemos acusar essa insuficiência justamente porque, por natureza, estruturalmente, temos dentro de nós a capacidade de julgar.
Qualquer que seja a situação que cada um de nós se encontra, o real continua a vir ao nosso encontro, despertando em nós o maravilhamento, ou seja, a curiosidade e o desejo que temos à nossa frente. É sempre o impacto com o real que desperta a nossa humanidade, em todas as suas dimensões e capacidades. É, portanto, o real que desperta o nosso desejo, na medida em que se mostra cheio de atração. No encontro com a realidade que atrai, a liberdade é colocada em movimento.
Trechos de uma palestra de Julián Carrón.
Rimini, Agosto de 2005.
"Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda..." Cecília Meireles
3 comentários:
rsrsrsr que legal Ka adorei a postagem !
Ka, adorei o texto!
Muito inspirador! Vou parar pra pensar nisso e mudar algumas coisas que precisam ser mudadas com urgência na minha vida!
Liberdade!!!
ahuahauah
Beijos
Eu preciso encontrar algo real que desperte minha humanidade então. Sinto falta de algo real que me atraia assim. Na verdade, sentia falta. Estou mudando isso... Procurando o que me faz bem, sendo livre. :)
Adorei o texo!
Beijos Kari!
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